domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Jacó Sampaio, a Bolota e a suspensão


Sem dúvida o Dr. Antônio, "O Careca" ou o "Rocha", como era chamado pelos alunos do ginásio, tem sua participação marcada na minha adolescencia.

Ele costumava ministrar suas aulas de Estudos Sociais (com ênfase em Geografia) na biblioteca. A biblioteca era o local ideal, pois como tinha varios mapas, isso facilitava as aulas de geografia, mas, como as mesas não eram individuais, facilitava também as conversas paralelas. Eu, como era um tagarela, certamente fui chamado atenção, muitas vezes, pelo Dr. Antônio, que la pelas tantas soltava um: "Seu Jacó, fecha essa matraca ai!...", mas como eu era um bom aluno, não recebia maiores punições.

As aulas eram após o recreio. Certa vez, eu fiquei na sala lendo uns gibis da Maria Alzira, não percebi o fim do recreio e acabei esquecendo da aula na biblioteca. Como eu era um tagarela, e não faltava às aulas, o Dr Antônio sentiu a minha falta. Quando perguntou por mim, o pessoal falou que eu tava na sala.

Ele foi até a sala ver o que estava acontecendo. Quando eu percebi foi só aquela careca passando pelos congombós. Pensei comigo: "ih, tô frito!

Ele pegou o gibi, olhou. Era aquele gibi da Bolota. Olhou pra mim, soltou a sentença: "Seu Jacó, o sr. tem três dias de suspensão prá ler bolão em casa!". Quando relembro a cena dou risadas, mas nós tínhamos um medo descomunal do Dr. Antônio.

Para mim é uma honra ter sido aluno desse grande homem, que foi responsável pela formação educacional de várias gerações de unionenses. Se hoje sou Engenheiro Civil, Mestre em Informática, certamente o Dr. Antônio tem sua particicipação marcada na minha formação.

Grande abraço. E transmita um grande abraço ao Dr. Antônio por mim

Jacó Sampaio
(Unionense, Engenheiro bilhante, cumprindo exílio voluntário no Paraná)
.

A árvore genealógica dos Rocha

Quem gosta mesmo das referências antepassadas é o Dilson, além do próprio Antônio Rocha (pai). Mas ei que a contribuição vem do Rocha Júnior - que é o quarto Antonio Martins da Rocha na linhagem nobre da família, conforme do próprio faz questao de colocar no quadro exposto neste post.

Vejam que os Martins da Rocha vem de longe, desde o berço lusitano. Aqui no Piauí, as referêcias principais são as cidades de Jerumenha e Bertolínea, além de União.

O que está neste quadro é só a linhagem direta. Não há referências a outros nomes, mais ou menos ilustres, como o Visconde de Parnaíba, que foi governador da província do Piauí por uns 20 anos. Tampouco figuram nomes menos votados - se bem que Souza Martins, o Visconde, não precisou ser votado para chegar ao posto maior.
De qualquer forma, aí está o registro cuidadosamente compilado pelo Rocha Júnior a partir do livro Dados Genealógicos da Família Rocha, do Sebastião Martins de A. Costa; José F. de S. Rezende; e Moacyr S. da Rocha.



.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O aprendiz de motorista

Possivelmente, até ele concorde: se fosse motorista profissional, Antonio Rocha morreria de fome. Sempre foi o que se chama de um “roda presa”. Além disso, nunca soube da existência da correia dentada ou do carburador; tampouco tem conhecimento de onde se esconde o radiador ou mesmo para que serve a chave de roda.

Quando juntava uma coisa com a outra, o estrago estava feito.

Pois esse candidato a Rubinho Barrichelo comprou, em 1974, um Corcel GT. Um carrão, bonito e esportivo.

Todos os dias seguia para o Ginásio Felinto Rego montado na máquina. Um dia, a meio caminho, percebeu que o carro puxava para um lado. Parou. Desceu. E viu: o pneu estava furado.

Sem muita intimidade com as ferramentas, deixou o Corcel estacionado. E pediu que um garoto avisasse aos filhos, em casa. Eles que cuidassem do pneu furado.

Ao chegar à quinta da família Rocha, o garoto deu o recado para Fenelon, o sétimo de dez filhos do professor com dona Irene.

O carro estava estacionado a uns sete quarteirões de casa – quase um quilômetro de distância. Fenelon resolveu que deveria trazer a máquina para casa.

Seguido de outros irmãos, entre eles Dílson – o oitavo dos rebentos –, seguiu para providenciar o resgate. Pensava em trocar o pneu e, depois, empurrar o veículo até a garagem doméstica, em forma de latada. E assim estava sendo feito.

Pneu trocado, Fenelon tomou a direção e um magote de menino se prontificou a empurrar o carro. Depois de percorrido uns 100 metros, Fenelon meteu a segunda e deu a partida no motor. O carro estava funcionando e ganhou velocidade. Fenelon estava dirigindo.

Era a primeira vez. Antes, o máximo que tinha feito era ligar o carro e deixar o motor esquentando até que o pai tomasse o mando da direção e rumasse para o Ginásio. É verdade, o rapaz treinava o engate das marchas, enquanto o carro estava parado na garagem. Mas dirigir, de verdade, nunca antes.

Levou o carro até a casa e colocou debaixo da latada, antes fazendo o parachoque beijar levemente um pé de guabiraba. Quando Dr. Antonio chegou à noite, o carro estava em casa. Fenelon já dormia. Devia sonhar – ou ter pesadelos – imaginando a reação que Dr. Antonio teria, ao saber que dirigira o carro sendo um menino do buchão e, pior, sem nunca ter dirigido antes.

No outro dia, bem cedo, o professor encara o filho e pergunta:
− Foi você quem trouxe o carro?
− Foi − respondeu o filho, sem convicção e sem saber que reação esperar.
− Pois vamos me deixar no Ginásio.

A reação foi surpreendente. E trazia outro desafio: dirigir o carro pela segunda vez e tendo Dr. Antonio do lado. Um sufoco.
Fenelon tomou o mando do Corcel e rumou para o Ginásio. Chegou ao destino sem sobrassaltos, estacionou direitinho e passou a chave para o dono da máquina.

− Muito bem – limitou-se a dizer.
Em casa, no entanto, Dr. Antônio passou à gozação. Ria do nervosismo do recém-promovido a motorista e da trajetória sinuosa que traçava no meio da rua.

− Não sei como, ele encontrava esquina no meio da rua − dizia, entre risos.

****
Por certo, é melhor ri dos outros que ser o motivo do riso alheio. E o “motorista” Antonio Rocha era de causar gargalhadas.
A inabilidade do Dr. Antonio com os automóveis ganhou as ruas de União em forma de piada. Os piadistas atacavam, especialmente, a lentidão do professor ao volante. Era quase como uma tartaruga. Uma espécie de Rubinho do Estanhado. Claro, virou piada.

Isso aconteceu logo depois que comprou o tal Corcel GT.

O carro, modelo 69, era imponente, bem vistoso, todo vermelho com uma larga tarja negra sobre o capô, da tela frontal até o início do pára-brisa. Despertava a cobiça dos esportistas, já que um carro com motorização mais forte e um desempenho mais agressivo.

Segundo as más línguas unionenses, um dia Dr. Antonio resolveu explorar o potencial do possante, colocando à prova não só os limites do veículo como sua capacidade de motorista.
Seria uma prova com testemunha. Ou melhor, testemunhas, já que junto estava a espora, Irene, e o caçula, Délio, por essa época um meninote que carecia de cuidados especiais como cabe a toda criança.
Antônio Rocha se aprumou no banco do motorista, ao passo que dona Irene e Délio foram se acomodando ao lado, no banco do passageiro. O professor ligou o motor, deu umas duas aceleradas – uma delas bem profunda e duradoura, para esquentar o motor. Meteu a primeira e advertiu aos companheiros de aventura:

− Irene, segura o Délio que eu vou puxar 20.

Era assim. Quando passava de 20 km/h era uma proeza.
.

domingo, 31 de janeiro de 2010

e-Mail do Professor Lourival Lopes

Meu caro Fenelon Rocha:
Há muito tempo que eu esperava essa atidude (porque idéia eu sei que você já tinha há anos) de sua parte. Jornalista brilhante, professor competente, você não poderia fugir da responsabilidade de resgatar as memórias de seu querido pai.

O Dr. Antonio, sem dúvida, marcou (no sentido latino da palavra "educere") a vida, no mínimo de três gerações (décadas de 60, 70 e 80).

Criticado por alguns, amado por muitos, o Dr. Antonio é daqueles professores abnegados, desprovido de quaisquer interesses pessoais, cujo prazer está apenas na arte de ensinar.

Outro dia fui visitá-lo e lá estava ele com um livro sobre a II Guerra Mundial de mais de seiscentas páginas todo marcado nas partes que ele considerava mais importantes. O que leva um professor aposentado de 86 anos a continuar com leituras de obras didáticas sobre aquilo que mais fez na sua vida de professor? A única resposta possível é o amor pelo conhecimento.

O dr. Antonio Rocha é uma pessoa de profundo conhecimento geral, e muito atualizado. Fico imaginando um homem desse, com tamanho saber e memória de computador, utilizando-se da internet.

Parabéns, meu caroFenelon, pela iniciativa. Tenho certeza de que você terá muito trabalho em selecionar as estórias e histórias daqueles que tiveram a honra de ter sido aluno do Prof. Antonio Rocha. Professor com letras maiúsculas.
Um abraço do admirador.

Lourival da Silva Lopes
(Unionense e professor dedicado a formar gerações)
.

Uma relação não muito católica (2)

Este tópico é seqüência do do anterior, sobre a difícil relação do Dr. Antonio com os padres, em especial Padre Isaac Vilarinho e Padre Emídio Andrade.

PADRE EMÍDIO:
As desavenças com o padre Emídio Andrade começaram pouco tempo depois do sacerdote chegar a União.

Como fazia sempre, Dr. Antonio convidava o pároco – como também o juiz – para dar aulas no Ginásio Felinto Rego. Era uma forma de assegurar professores de boa formação. Não foi diferente com padre Emídio.

Nas primeiras semanas de aula, no entanto, o padre causou estranheza. Chegou no ginásio de sandália currulepo. Para Dr. Antonio, que exigia aprumo dos alunos, passava um pouco da conta. E reclamou.

Padre Emídio não gostou. Daí em diante, alimentou uma animosidade profunda. Primeiro, tentou arrebatar o posto de diretor do Ginásio, buscando apoio inclusive na cúria diocesana. Não surtiu efeito. Mas o sacerdote não desistiu.

O confronto culminou com uma denúncia formal à Secretaria de Educação do Estado contra o diretor. Entre outras coisas, acusava-o de relapso e de centralizador. Uma verdade e uma mentira. Dr Antonio sempre foi centralizador. Relapso, jamais.

O professor tomou conhecimento da denúncia em uma de suas visitas à Secretaria, quando foi informado por um dos muitos amigos que mantinha por lá. Teve acesso à denúncia, cheia de assinaturas, muitas delas falsificadas – diversos nomes tinham a mesma grafia, indicando que uma mesma pessoa assinara por outras. Mas também havia diversas assinaturas verdadeiras, de pessoas ligadas à igreja e ao padre.

A única assinatura que não constava era a do padre. Mas fora ele mesmo o responsável pela entrega do documento. A denúncia tinha DNA conhecido.

O esforço do padre para tirar Antonio Rocha da diretoria do Felinto Rego não prosperou. Apesar do gênio forte, ela conhecido como bom gestor e, principalmente, como um educador preocupado com a qualidade do ensino. Sabia-se em todo o Piauí: os egressos do colégio estadual de União tinham boa formação e eram adversários duríssimos em qualquer concurso público.

Apesar do empenho do padre, a denúncia foi arquivada. E logo Antonio Rocha teria a chance de dar o troco.

A chance veio nas comemorações dos 10 anos de fundação do Ginásio Felinto Rego, no dia 13 de junho daquele ano de 1967. Havia representantes de outras cidades. E o próprio secretário de educação, padre Baldoíno Barbosa de Deus, prestigiava o evento.


O primeiro toco veio quando, na formação da mesa de honra, o diretor não chamou o padre. O secretário presidia a solenidade e passaria a palavra ao primeiro orador, precisamente o professor Rocha.

O conteúdo do discurso era do conhecimeto de uns poucos. Escrito à mão pelo professor, fora datilografado por José do Egito Vasconcelos, funcionário do Banco do Brasil que se afeiçoara muito ao professor. José do Egito preocupou-se e advertiu ao deputado José Raimundo Bona Medeiros. Este pediu que Dr Antonio maneirasse no tom das críticas.

Não adiantou.

− Zé Raimundo, eu não sou diretor. Eu sou é professor. Se quiserem, podem me tirar da direção – disse, reafirmando a intenção de pronunciar o discurso.

O conteúdo tinha endereço mais que claro. E ele estava bem ali na frente, sentado na platéia, escutando. Em certo trecho da fala, Antonio Rocha dizia:

− Lutamos há 10 anos. Inicialmente, contamos com o apoio dos otimistas. Em seguida, transformamos em aliados os pessimistas. Mas não pudemos, nem devemos, perdoar aqueles que desejaram e continuam hoje a desejar o nosso fracasso. Por não possuírem a coragem para o combate leal, o combate frente a frente, preferem o anonimato, que é o apanágio dos covardes.

Padre Emídio sofreria duas derrotas. Primeiro, viu ali mesmo na solenidade um discurso de Baldoíno Barbosa de Deus que era de claro apoio ao diretor do Ginásio.

− Os meus problemas no Estado são bem maiores que os do Professor Rocha aqui. Mas a obrigação dele, como a minha, é tirar as pedras do caminho e seguir em frente.

Diante daquele desfecho, o padre se viu enfraquecido. Vinte dias depois pediu demissão do Ginásio. Não havia conseguido ser diretor. Então não queria ser professor.
.

Uma relação não muito católica (1)

A relação de Dr. Antonio Rocha com os padres nunca foi, pode-se dizer, muito católica. Na verdade, sempre teve um pé atrás com os padres – ou pelo menos com a maioria deles. Sempre desconfiava de suas boas intenções, vendo na atuação dos sacerdotes muito interesses bem mais terrenos que divinos.

O professor recorria ao próprio Pai Nosso para traduzir o que pensava dos padres:

− É só Venha a Nós. Ao Vosso Reino, nada.

Tinha lá os seus eleitos. Admirava Dom Avelar Brandão Vilela a ponto de forma uma caravana para sua posse como Primaz do Brasil, em 1971. Também sempre se derreteu em elogios ao padre Luís Brasileiro e a dois espanhóis que desembarcaram em União no final dos anos 60: padre Xavier e padre José.

Creio que tinha uma certa predileção pelo padre Xavier, que gostava de fumar e bebê – tal como Dr. Antonio. Xavier também era pouco convencional, a ponto de fazer o percurso entre União e Teresina em meia hora – num Fusca, e num tempo em que a estrada ainda era de piçarra. Coisa de louco, tanto que poucos aceitavam carona com o espanhol voador.

Padre José Gonzalez Alonso não é mais padre. É bispo, à frente da diocese de Cajazeiras, na Paraíba. Mas na memória dos unionenses segue simplesmente “Padre José”, um homem tranqüilo, muito culto e sempre atencioso. “Um sujeito 100%”, no dizer de Antônio Rocha.

Nas contas do professor, no entanto, outros padres simplesmente não contam. Ou, se contam, estão numa conta com resultado negativo. Nessa listam estão Emídio Andrade – que deixou a batina – e Isaac Vilarinho, que chegou a monsenhor.

Neste tópico, vai apenas a história do padre Isaac. No seguinte será a vez do padre Emídio.

PADRE ISAAC:
Quando foi pároco de União, no início dos anos 60, padre Isaac tinha atitude que às vezes gerava atrito com as lideranças locais. Causava especial desconforto o aberto apoio que dava ao movimento dos trabalhadores rurais. Mas isto não afetava Dr. Antonio, tampouco é a razão para as críticas que faz ao depois Monsenhor Isaac Vilarinho.

Tudo está vinculado aos importantes registros históricos que o pároco fez desaparecer. Uns 35 anos depois, os ecos daquela tragédia histórica ainda eram ouvidos. E mantendo o desconforto.

No final da década de 90, um grupo de oeirenses chegou a União. O grupo representava o Instituto Histórico de Oeiras e tinha à frente o desembargador José Luís Martins de Carvalho, que servira em União como juiz e professor do Ginásio Felinto Rego, dirigido pelo professor Antonio Rocha.

Pelo conhecimento minucioso da história do município desde os tempos em que ainda era a fazenda Estanhado, o professor foi chamado pelo prefeito Edmilson Mota para receber o grupo. A intenção dos oeirenses era resgatar informações a respeito de um conterrâneo ilustre, Manoel Clementino de Souza Martins, que havia morrido em terras unionenses, na luta contra os Balaios.

O professor sabia dos detalhes:

A luta contra os balaios aconteceu entre 1838 e 1840. Clementino era sobrinho do então governador da província, Manoel de Souza Martins, o Visconde da Parnaíba. Morreu em combate, no local hoje correspondente ao povoado Santa Rita, município de União. Recebeu ali mesmo as honras militares e o reconhecimento da igreja, sendo sepultado na própria matriz de Nossa Senhora dos Remédios. O templo tinha começado a ser construído alguns anos antes e só ficou totalmente acabado em 1865. As sepulturas tinham sido conservadas durante as obras.

− Gostaríamos de conhecer a sepultura de Clementino – adiantou o desembargador José Luís.

− Infelizmente não vai ser possível – avisou o professor.

Foi quando revelou toda a tragédia patrocinada pelo padre Isaac.

Naquele início dos anos 60, Isaac Valarinho queria reformar a igreja matriz. Conseguiu apoio e dinheiro e passou-se à reforma. E lá estavam umas seis sepulturas, coladas na parede lateral do lado direito da porta de entrada.

O padre não gostava das sepulturas. Alheio à importância daqueles registros históricos, aproveitou a reforma e mandou arrancar tudo, despejando os restos em uma vala do cemitério.

− Pelo menos podemos ver a sepultura no cemitério? − quis saber o desembargador.

Não podiam. Agora, nada mais restava, nem mesmo uma indicação da vala que recebera os restos dos seis antepassados. Os oeirenses fizeram o caminho de volta. Deixaram em União, muito vivas, as críticas do professor contra o padre Isaac e seu “crime contra a história”.

− Padre Isaac foi péssimo, mais do que péssimo com a história de União.

(acima, veja o tópico sobre padre Emídio).

sábado, 30 de janeiro de 2010

O e-mail do Prof. Cantídio Filho

Dr. Antônio está guardado na minha memória, desde quando eu era aluno e ele diretor do Ginásio Felinto Rego, em União. Convivi e apreendi sobre disciplina, história e geografia.

Dono de uma personalidade rígida e sábia, Dr. Antônio foi responsável pela formação de gerações de estudantes unionenses que incorporaram marcas que carregam para a vida. No seu tempo de diretor e eu de aluno, Dr. Antônio, não permitia aluno com cabelo grande ou sem o uniforme devidamente arrumado.

Quando batia a campainha e o aluno ficasse conversando nos corredores, estava lascado. Aluno fazer algazarra, nem pensar! Era logo chamado à diretoria para uma conversa de pé de orelha e possivelmente uma suspensão. O pior era que o aluno suspenso levava um comunicado aos pais informando sobre os motivos da suspensão.

Triste de quem tentava fazer bagunça em sala de aula, quebrar carteiras, riscá-las, enfim fazer molecagem, como dizíamos na primeira metade dos anos 80. Quando faltava um professor, ele substituía e recitava aulas de história e geografia com infinita sabedoria.

Dr. Antônio é protagonista de uma época em que o modelo de educação tinha uma linha autoritária, contudo, para o contexto da época, necessário.

Naquela época tínhamos certeza que a escola pública não era uma casa de mãe Joana. Ela tinha uma hierarquia, era mais respeitada, produzia conhecimento. Afinal, o conhecimento, sempre lhe foi companheiro. Basta ver, o Dr. Antônio escrevia grande parte dos discursos das autoridades políticas do município de União.

Tenho certeza que caso atuasse como educador na contemporaneidade, Dr. Antônio saberia dosar compromisso, autoridade, diálogo e amor. Com isto a escola pública com certeza cumpriria o seu dever até mais do que muitas da iniciativa privada, cuja maioria envereda pelo lucro fácil em detrimento de uma formação mais humana, responsável e cidadã. Educadores como Dr. Antonio e o professor de português e literatura, Pedro Reis fazem falta e, como fazem nos dias de hoje, principalmente na escola pública.

Um grande abraço,

CANTÍDIO FILHO
(Unionense, Jornalista e Professor da UFPI)