sábado, 30 de janeiro de 2010

O Perseguido não oficial


Quando desembarcou em União nos primeiros anos da década de 70, Pedro Reis trouxe na bagagem uma suspeita. Não se sabia ao certo, mas dizia-se que estava fugindo.

Não se dizia claramente, até porque vivia-se os anos duros da ditadura militar. Era o governo Médici. Tempo de sussuros.

A Arena mandava e desmandava em União. Mesmo assim, a ditadura causava sobressaltos. Anos antes, Antônio José Medeiros fora preso.

Antonio José era um contestador, dentro do molde da Faculdade de Filosofia, onde estudava. Na faculdade, de orientação católica, bebia nas fontes filosóficas e na cartilha do Concílio Vaticano II, que estimulou o surgimento de uma igreja católica mais comprometida com as questões sociais. Por conta disso e das andanças pelos bairros pobres da zona sul de Teresina, acabou preso na capital.

O professor Antônio Rocha chegou em casa com a notícia:
— Eita, o filho do Pindunga foi preso – disse, levantando as sobrancelhas e franzindo a testa em sinal de preocupação.

Quando Pedro Reis desembarcou, vindo do Mato Grosso, Rocha não disse nada. Pelo menos que os filhos pudessem ouvir, nada! Mas os comentários circulavam pela cidade: o novato era um fugitivo.

A imprecisão da informação dava asas aos comentários. Havia quem dissesse que fugiu de um compromisso matrimonial. Outros, que tinha contas a pagar com a justiça. Mas a grande maioria dizia que era um comunista – e que se esquivava das garras da ditadura.

Não custa repetir, era tempo de Médici, quando o clima de perseguição estava no ar, palpável

Apesar dos rumores, Antonio Rocha convidou Pedro Reis para dar aula no Ginásio Felinto Rego. Foi um dos melhores professores que o Ginásio já teve. Tinha mais ou menos a mesma linha do diretor: não se preocupava apenas em ensinar a matéria – no caso de Pedro, inglês e Português – mas provocava, estimulava a pensar.

Em pouco tempo, conquistou um mundo de admiradores, especialmente entre os alunos. Mas não faltavam os desgostosos, especialmente entre os mais tradicionais que não viam com bons olhos aquele professor metido entre os alunos e vivendo sozinho num quarto ao lado da loja do seu Perico.

Um certo domingo chega a União o professor Manuel Paulo Nunes, que funcionava como inspetor federal para a área da Educação. Quer dizer, fiscalizava as escolas para conferir os aspectos administrativos e pedagógicos.

Ao chegar, foi direto procurar o diretor do Ginásio. Amigo de Antônio Rocha de longas datas, não arrodeou:

— Rocha, você tem aqui um professor que é procurado pela polícia política.

O diretor ficou estático por alguns momentos. Seguia com a cabeça levemente levantada, olhando Paulo Nunes pelo arco inferior das lentes bifocais. Sabia de quem falava. Mas não passou recibo.

— Danou-se – limitou-se a dizer, enquanto levantava a mão esquerda para apertar a ponta do queixo com o indicador e o polegar.
Paulo Nunes repetiu a informação, também serenamente. Rocha quis saber o que aquele comunicado significava.

— Você veio fazer a notificação? – perguntou.

Não. Paulo Nunes estava ali mais como amigo que na condição de inspetor. Queria alertar e evitar problemas.

Recebera a informação e sabia que a qualquer momento poderia haver uma ordem expressa dos representantes militares. Nesse caso, as medidas não tinham um parâmetro: podia resultar na pura e simples demissão do professor ou até mesmo na prisão. Podia sobrar inclusive para o diretor, apesar de integrante da Arena.

Depois de um breve silêncio, Paulo Nunes revelou que a informação ainda não era oficial. Mas o relatório em mãos da polícia política qualificava Pedro Reis como um comunista de grande atividade subversiva pelas bandas do Mato Grosso. Apesar de não ter nenhuma denúncia formal contra Pedro, o matrogrossense era visto como um fugitivo. Simplesmente porque, naquele tempo, criminoso era quem a ditadura queria que assim fosse.

Depois de um pequeno silêncio, Paulo Nunes e Dr. Antônio chegaram a um acordo: enquanto não houver nenhuma ordem formal, nada se faz. Nem da parte da inspetoria da educação, tampouco da diretoria do Ginásio.

Seria como se nenhum dos dois soubessem do caso.

Pedro foi comunicado por Antônio Rocha da pressão que começava a sofrer. Decidiram que seguiria dando aulas – e que o assunto permaneceria em segredo.

Logo Médici deixou o posto e Geisel assumiu prometendo a abertura lenta, gradual e segura. É verdade que a abertura levou dez anos até se transrformar em democracia. Mas a atitude de Paulo Nunes e do Dr. Antônio permitiu que Pedro seguisse seu ofício de dar aulas e formar pessoas.

Anos depois ele mudaria para Teresina, onde também se destacou como um dos grandes professores de diversos colégios da capital.
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